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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Luiz Carlos da Silva Gomes é um experiente desbravador dos sítios arqueológicos e paleontológicos da região do Rio do Peixe e há mais de 50 anos participa de expedições de projetos científicos na Paraíba

 



Natural de Sousa (PB), Luiz Carlos da Silva Gomes é um experiente desbravador dos sítios arqueológicos e paleontológicos da região da Bacia Sedimentar do Rio do Peixe e há mais de 50 anos ele participa de viagens e expedições de projetos científicos no Estado da Paraíba, inclusive ao lado de grandes pesquisadores renomados, como o Padre Giuseppe Leonardi.

 

Sua peregrinação pelos sítios começou lá atrás, em 1967, quando trabalhava como fiscal de operações de crédito agropecuário, no qual realizava muitas visitas às fazendas e assim descobriu a primeira “Pedra com Letreiros”, que se tratava de uma pedra com pinturas rupestres. A partir de então se iniciou uma verdadeira busca à pré-história e uma vida dedicada à conservação patrimonial histórica e cultural.


Nesta entrevista exclusiva à jornalista Bruna Steinbach, Luiz Carlos relata muitas histórias fascinantes, desde o período em que se descobriu fascinado pela arqueologia até os tempos atuais com o trabalho que vem realizando no Projeto de Atividades de Pesquisa de Educação Ambiental e Patrimonial na Bacia Sedimentar do Rio do Peixe, fomentado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties-PB) em parceria com a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq-PB).

 

Gostaria que o senhor contasse como foi o seu primeiro contato com um registro pré-histórico?

 

Luiz Carlos - Numa tarde de setembro de 1974, fui à Serra Branca, em Vieirópolis (PB), onde fui realizar uma fiscalização para verificar os prejuízos de um fazendeiro, numa roça que havia sido financiada com recursos do BNB, o Banco que eu trabalhava, para plantar algodão em consórcio com milho e feijão. Um bando de macacos-prego que havia sido solto naquela serra, estava causando incalculáveis prejuízos aos fazendeiros, destruindo os plantios de milho, feijão e fruteiras diversas. Ao final daquela fiscalização, perguntei ao fazendeiro se ele sabia de pedras diferentes que existiam por lá, pois eu levava para uma professora aposentada, colecionadora de pedras. O fazendeiro me disse que tinha uma pedra diferente cheia de letreiros e desenhos que ninguém entendia nada. Mas para ver essa pedra tive que arranjar três trabalhadores para subir a serra. A subida naquela oportunidade era cansativa, em terreno íngreme até alcançarmos a tão aguardada “pedra dos letreiros” que provocou em mim grande admiração, pois aquela era a primeira vez que eu contemplava um registro pré-histórico. No paredão de pedra estavam ali as pinturas rupestres atravessando os tempos, resistindo ao sol sertanejo da tarde. Ao passar os primeiros momentos mais impactantes fomos explorar outros pontos daquela pedra, onde constatamos duas cavernas, uma a leste e outra a oeste, sendo a do leste mais ampla que a outra a oeste. Quando estive lá pela primeira vez, percebi que numa passagem estreita a pedra estava bastante desgastada indicando que ali havia passado pessoas (ou animais) por longo tempo, tal demonstrava seu uso, por se apresentar pouco lisa. Entretanto, quando voltei lá a última vez em 13 de fevereiro de 2013, percebi que o “matacão” havia inclinado poucos centímetros para a frente, estreitando muito aquela passagem do passado. Então, é provável que num futuro adiante aquele “matacão” possa rolar serra abaixo, como outros já rolaram. O desmatamento em seu entorno e as águas pluviais modificam as sustentações, daí acontecendo o desequilíbrio e alteração daquela paisagem.

 

Como o senhor fez para registrar a “pedra dos letreiros”?

 

Luiz Carlos - Naquela oportunidade eu não tinha máquina fotográfica, pois na época além de ser um equipamento caro ainda não existiam as compactas. Então levei cartolinas brancas e um pincel atômico, tendo copiado aquelas pinturas, tais quais estavam na pedra. Tempos depois o navarrense Nertran Pires Milfont, funcionário público e fotógrafo profissional em Brasília, esteve no local onde fez a foto, comigo, Zamba e dos trabalhadores que fizeram aquela “picada” como se aquela fosse a primeira vez que lá estivemos. Ficou interessante o registro fotográfico (fazendo de conta que estávamos ali pela primeira vez). Ao retornar à Sousa fui mostrar aqueles desenhos na pedra dos letreiros ao juiz de direito Firmo Justino de Oliveira, que sugeriu que eu fizesse a redação narrando sobre aquele achado para publicar no Jornal O Norte. E assim, o fiz. Quando a reportagem foi publicada recebi uma carta de um odontólogo paraibano, que morava em São Paulo, me orientando que eu fizesse a comunicação daquele achado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba – IPHAEP. Assim eu fiz, quando, a partir de então, os pesquisadores começaram a chegar à Serra Branca, que localmente conhecem por Serra das Araras. 

 

A partir desse achado da “pedra dos letreiros”, o senhor demonstrou maior interesse nas buscas de vestígios e também uma preocupação com a conservação patrimonial e ambiental, visto que naquela época o Parque do Vale dos Dinossauros em Sousa (PB) não contava com nenhuma infraestrutura turística. Qual foi a sua contribuição na preservação do Vale?

 

Luiz Carlos - Em 20 de novembro de 1996 foi quando eu sugeri que fosse criada uma ONG, pois com uma organização não governamental, com CNPJ, os pedidos em prol do Vale dos Dinossauros teriam outro peso, mais do que aqueles feitos individualmente. E assim foi fundada a MOVISSAUROS (Associação Movimento de Preservação do Vale dos Dinossauros), que ao iniciar sua atuação tirou o Vale dos Dinossauros do esquecimento em que se encontrava, pois, quando Giuseppe Leonardi havia encerrado suas pesquisas em 1989, nada mais se falava sobre pegadas de dinossauros, até porque naqueles anos as emissoras de Sousa eram pouco atuantes. Entretanto, quando os integrantes da MOVISSAUROS passaram a buscar os achados catalogados por Giuseppe Leonardi e encontraram novas pegadas de dinossauros, os jornais da Paraíba abriram espaços para a divulgação desses achados, de novas pegadas, daí o Vale dos Dinossauros voltou à berlinda. 

 

O senhor presenciou vários descasos com o patrimônio histórico, como relatou a situação anterior do Vale dos Dinossauros em Sousa (PB) e que a partir da sua iniciativa com a ONG o Vale foi reestruturado. Como foi a sua atuação na conservação desse importante patrimônio?

 

Luiz Carlos – Eu era o presidente da entidade e que naquela altura para mirar a preservação do nosso patrimônio histórico e cultural tive que exigir a adoção de medidas por parte do poder público que não se sentiam confortáveis com as reivindicações. Mas diante dos justos pleitos, conseguimos os objetivos planejados. O Vale dos Dinossauros padecia com a falta de infraestrutura turística, por descaso das autoridades constituídas em todos os níveis: municipal, estadual e federal. Mas graças ao professor Daniel Duarte Pereira, da UFPB, campus de Areia, que frequentemente estava no sítio Ilha/Passagem das Pedras conduzindo alunos para visitar as pegadas de dinossauros. Quando o professor percebeu a ausência total de infraestrutura turística, elaborou um amplo projeto contemplando o Vale dos Dinossauros. A principal área de distribuição das pegadas de dinossauros localizada em Passagem das Pedras (fazenda Ilha) no município de Sousa, é atualmente um parque natural. Em 20 de dezembro de 1992 através de um Decreto-Lei estadual (Decreto no 14.833, de 20 de dezembro de 1992, Diário Oficial do Estado da Paraíba) esta localidade icnofossilífera foi tombada como Monumento Natural e designada como "Monumento Natural Vale dos Dinossauros". Em 1996 foi assinado um convênio entre o Ministério do Meio Ambiente, Estado da Paraíba/Superintendência de Administração do Meio Ambiente e Prefeitura Municipal de Sousa visando a consolidação do "Monumento Natural Vale dos Dinossauros".

 

O senhor trabalhou com o Padre Giuseppe Leonardi, um grande pesquisador e pioneiro nas descobertas das pegadas de dinossauros. Como foi esta experiência?

 

Luiz Carlos - Quando conheci Giuseppe Leonardi eu trabalhava no BNB, prestando expedientes de segunda às sexta, de modo que somente aos sábados e domingos havia condições de viajar com Leonardi. As pesquisas de Giuseppe Leonardi, no Vale dos Dinossauros, oficialmente foram encerradas em 1988, mas nas vezes que esteve em Sousa, após a minha aposentadoria em 1993, sempre o acompanhava. Quem o acompanhou durante todo o tempo de suas pesquisas, foi Robson de Araújo Marques, seu amigo e colaborador. Lembro-me da vez que Giuseppe Leonardi veio a Sousa após o encerramento oficial das pesquisas e foi na época do período natalino. Na tarde, véspera de Natal eu estava com Leonardi no sitio Piau (Sousa), caminhando sobre as pedras quentes, que vez por outra eu ia caminhar dentro das poças de lama para esfriar os tênis que estavam muito quentes, quando olhando pra ele absorto nas anotações que fazia diante de uma pegada, parecia que o tempo quente pra ele nem dava para perceber, quando ele sem tirar os olhos da caderneta de anotações disse: “Luiz, em Veneza onde eu moro, hoje aqueles canais por onde as gondolas passeiam com os turistas, estão coberto de neve onde as crianças brincam fazendo bonecos de neve”. Foi quando eu disse: “Professor, o Senhor mora numa cidade que todos desejam ir pra lá porque dizem ser a cidade do amor, entretanto, está aqui no rio do Piau com os pés pegando fogo caminhando sobre as pedras quentes”. “Ah Luiz, se eu pudesse, se no Nordeste tivesse igreja da minha congregação eu já estaria morando aqui, porque eu amo esta cidade, eu amo estas pegadas de dinossauros”! Sinceramente, fiquei emocionado com aquele depoimento de Giuseppe Leonardi declarando aquele amor que eu percebi quão eram sinceras suas palavras. Leonardi chegou a Sousa pela primeira vez em 1975 e a última vez que aqui esteve foi em 2016, num espaço de 41 anos ligado pessoalmente ao Vale dos Dinossauros. Atualmente mantenho contato com Leonardi quando desejo informações sobre assuntos da sua área, ou com Ismar de Souza Carvalho ou ainda com Fátima Santos, de Natal (RN).

 

Quais as suas expectativas com o trabalho atualmente do Projeto Rio do Peixe?

 

Luiz Carlos - Os paleontólogos e arqueólogos novos que estão inseridos no Projeto Rio Do Peixe são muito valorosos, pois são eles que darão continuidade aos trabalhos desenvolvidos por Giuseppe Leonardi (85 anos de idade, morando em Veneza, Itália), verificando as condições dos sítios com pegadas e inscrições rupestres e demais ocorrências no âmbito dessas ciências. Com esse quadro de paleontólogos e arqueólogos novos sugiro que passem a penetrar em novas áreas da Bacia do Rio do Peixe, especialmente nos afluentes do referido rio, por exemplo, à parte oeste da Formação Geológica Sousa, como o Riacho Cacaré, Várzea da Ema, subindo pelo Riacho do Umari em direção a sua foz, região da Fazenda Almas, Recreio e  noutra direção ao norte de Uiraúna onde está a nascente do Rio do Peixe, no município de Poço Dantas, fronteira como Estado do Ceará, foram área não cobertas por Giuseppe Leonardi em suas pesquisas. Será muita valiosa a descoberta de novas pegadas, que não sejam as já catalogadas por outros pesquisadores, assim dará melhor ênfase ao Vale dos Dinossauros PB. Atualmente a paleontologia está em alta no Brasil, se criando parques artificiais com réplicas de dinossauros emitindo sons e realizando movimentos para encanto de crianças, jovens e adultos, além de ser uma fonte com altos rendimentos financeiros. Resta aos jovens, participar desse processo visando a preservação de rastros originais de dinossauros, como os existentes do nosso Vale dos Dinossauros, que, quiçá venha a ser reconhecido como Geoparque com reconhecimento pela UNESCO. As pegadas de dinossauros existentes no sitio Ilha (Passagem das Pedras), em Sousa PB, nos dá a sensação que o dinossauro acabou de caminhar naquela lama com fendas de ressecamento, pelo sol sertanejo. Sou da opinião que o Vale dos Dinossauros, de Sousa PB, seja administrado por alguém com curso de especialização em paleontologia, com guias treinados para transmitir aos turistas toda a beleza que são as pegadas dos “nossos” dinossauros. Antes de finalizar desejo apoiar a ideia do arqueólogo e escritor paraibano Carlos Alberto Azevedo, que o Vale dos Dinossauros passasse a ser conceituado por Monumento Natural e Cultural, pela existência de vários sítios arqueológicos em sua área e não apenas Monumento Natural como é atualmente. Aliás, no Museu, precisa ter ao menos uma fotografia de um dos sítios rupestres na área do Vale dos Dinossauros, para mostrar aos turistas e estudantes, por exemplo, que foi realizadas uma datação numa estrutura de fogueira pelo método absoluto do Carbono 14 (C-14), atestando a idade de 7600 anos A.P. (antes do presente) no sitio rupestre de Serra Branca (Vieirópolis PB). Enquanto no Serrote dos Letreiros (Sousa PB), painéis de inscrições rupestres associadas a pegadas de dinossauros, catalogadas pelo paleontólogo Giuseppe Leonardi em 1977, atestam a raridade daqueles registros, que nunca foram mostrados no Museu do Monumento Natural Vale dos Dinossauros. 

 




quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Arqueólogo Juvandi de Souza Santos fala sobre o Projeto Rio do Peixe que investiga pegadas de dinossauros e gravuras rupestres em Sousa e outros municípios da Paraíba


 

Juvandi de Souza Santos é professor, arqueólogo, paleontólogo e pesquisador da Universidade Estadual da Paraíba. Ele é o idealizador e coordenador geral do Projeto intitulado APEAP - Atividades de Pesquisa de Educação Ambiental e Patrimonial da Bacia Sedimentar do Rio do Peixe, na Paraíba, fomentado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ensino Superior (Secties-PB) em parceria com a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq-PB) que conta com uma equipe multidisciplinar nas áreas de arqueologia, paleontologia, pedagogia, biologia, história e comunicação e tem como objetivo principal a preservação e difusão do patrimônio pré-histórico e histórico paraibano.



Primeiramente, gostaria que o senhor falasse um pouco do seu trabalho, como iniciou nas pesquisas científicas com foco nas prospecções de vestígios arqueológicos e paleontológicos na Paraíba?


Juvandi - Faz 32 anos que eu comecei nessas atividades de cunho arqueológico, paleontológico e espeleológico na Paraíba. Especificamente na região da Bacia Sedimentar do Rio do Peixe nós começamos as atividades em 2007/2008 realizando prospecções e atividades de educação ambiental e patrimonial nas comunidades dessa região.

Quando se deu início às pesquisas sobre as descobertas das pegadas de dinossauros no município de São João do Rio do Peixe? 


Juvandi - Essas pesquisas são muito antigas! Desde os anos 60, principalmente nos anos 70, o grande pioneiro é o Padre italiano Giuseppe Leonardi que já pesquisava nesta região. Então devemos à ele e posteriormente ao professor Ismar de Souza da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que também foi um dos pioneiros nas grandes descobertas de fósseis.


Quantos sítios arqueológicos e paleontológicos existem atualmente na Bacia Sedimentar do Rio do Peixe?


Juvandi - Até o momento nós temos um levantamento superficial de pelo menos 62 sítios paleontológicos e 15 sítios arqueológicos. Acredito que quando findar o projeto é que teremos a quantidade exata dos sítios existentes na região da Bacia Sedimentar do Rio do Peixe na Paraíba.


Além das pegadas de dinossauros, gravuras rupestres também são estudadas na região para a preservação patrimonial. São vestígios que vem superando a ação do tempo, do vento, das chuvas. Como é o trabalho feito pela equipe do Projeto de Atividades de Pesquisa de Educação Ambiental e Patrimonial da Bacia Sedimentar do Rio do Peixe (APEAP) para manter a conservação?


Juvandi - Inicialmente nós realizamos as atividades em campo de prospecções arqueológicas e paleontológicas nos sítios e fazemos o processo de catalogação de todas as pegadas evidenciadas. Para realizar o salvamento desses vestígios temos que pedir autorização da Agência Nacional de Mineração. A conservação de um material arqueológico só é possível ser feita em laboratório especializado. Naturalmente, os sítios tendem a desaparecer pelos processos erosivos das chuvas e do vento com o passar dos séculos.

 
Sousa, município da Paraíba é bastante conhecida mundialmente por possuir grandes quantidades de sítios com pegadas de dinossauros, onde está localizado o Monumento Natural Vale dos Dinossauros. O Projeto visa também realizar atividades de Educação Ambiental e Patrimonial, que visa promover palestras nas escolas, exibição de filmes, museu itinerante e visitação ao Vale dos Dinossauros com o intuito de promover uma conscientização do patrimônio e meio ambiente. Gostaria que o senhor relatasse quais são os principais desafios hoje de fazer pesquisa dessa magnitude?


Juvandi - O grande desafio é conseguir os recursos financeiros para trabalhar em pesquisa científica de modo geral no Brasil. Na questão ambiental, é muito desafiador impedir a destruição dos sítios tanto através das ações da própria natureza que não estão sob o nosso controle quanto da ação humana, que estas sim podemos controlar através de ações educativas para conscientizar a importância da preservação do nosso patrimônio histórico e ambiental.


Como resultado da pesquisa, serão publicado dois livros e será também realizado um congresso em março de 2025. Quais as expectativas para a publicação dos livros e também para o 1° Simpósio Paraibano de Paleontologia e Arqueologia na Paraíba que terá uma grande importância e contribuição para os estudos na área. 


Juvandi - Nós pretendemos publicar dois livros. O primeiro será resultado da pesquisa nos municípios de Sousa, Uiraúna e São João Do Rio do Peixe, já o segundo livro almejamos lançar na segunda etapa do Projeto no qual pretendemos visitar os outros cinco municípios que compõe a Bacia Sedimentar do Rio do Peixe. Para o 1° Simpósio nossas expectativas é lançarmos o nosso primeiro livro, convidar grandes pesquisadores que trabalharam na Bacia Sedimentar do Rio do Peixe para discutir as situações e o descaso dos sítios arqueológicos e paleontológicos no sertão da Paraíba. Será um grande evento com a presença do Padre italiano Doutor em Paleontologia Giuseppe Leonardi, o professor Ismar Souza da Univerdidade do Rio de Janeiro e outros grandes pesquisadores, mostrar as novidades e as grandes descobertas de novos sítios arqueológicos e paleontológicos realizadas pela nossa equipe.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Um bato-papo com o músico e militante cultural Lis Albuquerque


A Paraíba é um celeiro de grandes artistas e este fato não se discute. Acompanhamos em nossa história o nascimento e crescimento de nomes que se transformaram em ícones nacionais e internacionais. Eu começo citando Jackson do Pandeiro, paraibano de Alagoa Grande, conhecido como o “rei do ritmo”, que foi importante influência para a música popular brasileira e, ao lado de Luíz Gonzaga, pernambucano de Recife, o “rei do baião”, se tornou responsável pela nacionalização de canções nordestinas. 

A música é elemento da nossa identidade cultural, a marca de um povo, que registra as diversas transformações ocorridas ao longo das gerações. Mas a música muda de acordo com o tempo e sofre modificações do mercado exigente e competitivo, o que a torna em um produto de consumo. 

Acompanhe o bate-papo com o músico Lis Albuquerque sobre a sua carreira artística e como ele define a relação música x consumo x mercado.

Bruna - Quais os eventos ou festivais que você já participou em João Pessoa ou pelo estado?
Lis - Já faço música, cultura, ativismo, aqui na Paraíba desde o inicio dos anos 80. Passei um tempo no sul do país, mas já estou de volta há vinte anos. Nesse tempo realizei a criação de diversos trabalhos que para mim foram e ainda são importantes como o projeto Folia de Rua, o sêlo Aquarius (gravadora), a gravação de 2 discos e o espetáculo PARAHYBA SIM SINHÔ (em cartaz todas as quartas e quintas no restaurante Camarão Grill). Participei de vários festivais e também produzi outros, mas os que mais me deram destaque e experiência na PB foram o FREVANÇA, CANTA NORDESTE e FORRÓ FEST, neste último, onde participei por 07 vezes, tive o privilégio de ganhar o primeiro lugar este ano com a música É TUDO FORRÓ (Lis – Alberto Arcela) o que veio a ampliar ainda mais minha visão e admiração pelas grandes produções que traduzem profissionalismo e respeito pela arte da música. Vários outros eventos tive a oportunidade de participar pelo Brasil. Quando morava no Rio de Janeiro e depois São Paulo, toda semana haviam encontros de nordestinos que cantavam suas origens em locais freqüentados por artistas e intelectuais que se revezavam apresentando a nova música do Brasil que vinha do Nordeste. Nesse bloco estavam eu, Lenine, Tadeu Mathias, Bráulio Tavares, Capilé, Cátia de França, Fagner, Belchior e tantos outros que carregavam nas costas a responsabilidade de divulgar a musica do Nordeste. Atualmente tenho me dedicado a trabalhar nessa linda região em que vivemos. O Nordeste é quase um grande país, com uma cultura comercialmente promissora e com novos espaços para os que estão realizando trabalhos com profissionalismo e dedicação.

Bruna - Sabemos que a globalização é um fenômeno sem fronteiras e que influencia diretamente nas indústrias de consumo de produtos musicais. Como você define a relação música x consumo x mercado?

Lis - Não é o caso de ser contra a Indústria Cultural. Mas nesses tempos de globalização, de neoliberalismo, as pessoas só querem saber do lucro. De quanto custa esse ou aquele  objeto cultural. O que é mais importante para o Brasil: Parrá ou uma banda pop ou sertaneja?  Para a indústria cultural a banda pop  ou sertaneja trará muito mais lucros. Aí eu também pergunto: como ficam as músicas de conteúdo, a cultura popular de origem, por exemplo, a batida dos índios, caboclinhos? Devido à várias indefinições dentro do que é aceitável ou não, é que nossa identidade está fragmentada, quase destruída. Isso sem falar na enxurrada de bandas de forró que ocupam espaços relevantes na sociedade. Em outras palavras, são dois pesos e duas medidas.

Bruna - Conte um pouco sobre a sua rotina: o trabalho de compor, a elaboração de uma música, a gravação. E quais as suas expectativas em relação ao futuro de sua música aqui na Paraíba.
Lis - Tenho alguns parceiros que constitui ao longo dos anos, dentre eles Alberto Arcela que tem sido um norte na elaboração de trabalhos de vanguarda. Sou daqueles que exerce várias funções durante o dia, todas elas ligadas à música, desde produção, elaboração e execução de projetos culturais, isso sem falar que o aprendizado é constante, estou em processo criativo o tempo todo e é fundamental discernir as ideias para que não sejam divulgadas em vão. Já participei de todo tipo de evento na Paraíba, mas sempre falta  algum, os espaços são limitados, é preciso criatividade para expandir o potencial em todas as áreas, por exemplo, turística e/ou corporativa, associativas, etc. Aqui as coisas são amadoras demais para visibilizar um artista por si só, ele tem que  buscar mecanismos alternativos que completem seu trabalho, isso sem falar também na indústria da pirataria que afeta à todos. É hora de sair, de intercambiar, de trocar ideias com os estados vizinhos, saber o que eles estão fazendo e procurarmos juntos uma solução para a música nordestina de forma geral, incluindo a cultura popular, sem demagogia é claro. Temos que tirá-la desse marasmo e, de alguma forma, negociar com as indústrias da mídia uma corelação de valores e participações. A Paraíba ainda está engatinhando quando se trata de produção alternativa. Os verdadeiros atores não estão participando da cena e isso faz com que alguns projetos sejam feitos a toque de caixa, deixando a classe artística sem amparo ou mesmo sem alternativas morais, pois não há mercado que suporte a demanda  de novos trabalhos e qualificados.   

                                    

Beto Brito fala sobre produção musical na Paraíba




Um místico de repente, peleja, côco, toré, baião, martelo, cordel, rabeca e viola; é um  caldeirão  borbulhante  de todas as influências sonoras e literárias do nordeste brasileiro, sem o  estereótipo  do  conservadorismo tradicional e imutável. É um disco para o mundo, marcante, definitivo, atemporal, poético e  percussivo; regional e contemporâneo; primitivo  e  transcendental.  Assim  caminha  o  Imbolê, entre guitarras distorcidas, violas e rabecas, zabumbas, cítaras e grooves eletrônicos, reverenciando a  alquimia das fusões entre o pop e o  regional, flertando  com  o rap-rock, sampleando com  as  baladas  e cirandas, na pancada irreverente do baião elétrico. Produzido por  Robertinho  de  Recife, com  participação  especial  de Zé Ramalho e a poesia surrealista  de  Zé Limeira,  o “Imbolê - cordel e som na caixa”, é acompanhado ainda, de doze   livretos  autorais, recheados  de  martelos, ditados populares e emboladas, completando assim, essa brilhante obra músico/literária brasileira." (trecho retirado do site www.betobrito.com)

Leia à seguir o que Beto Brito opinou sobre os assuntos abordados: 

Como você define a fomentação da música paraibana no estado?
Caminhando... Ainda precisa dar passos mais largos, porém os caminhos estão sendo abertos. Mesmo com todas as intempéries e descuidos de tantos anos, eu sinto que muita coisa pode ser mudada  e reinventada. O que nós, artistas, devemos botar na cabeça é o seguinte: quem cuida de nós, somos nós... O estado, enquanto instituição, é apenas um elemento que pode nortear os investimentos, aumentando ou diminuindo, mas o conceito e as criações que farão as diferenças entre quem sobrevive e quem naufraga só depende de cada um.
Quais as maiores dificuldades em fazer/produzir música na Paraíba?
As mesmas dificuldades de qualquer outro lugar do mundo... Quem decide pela opção de viver de música ou de qualquer outra forma de arte, a única coisa que ele tem como certo é a incerteza. Nós, aqui na Paraíba, podemos sofrer ainda um pouco mais, pela influência de um estado como Pernambuco que tem quatro décadas de investimentos relevantes em sua obra cultural, enquanto que, pelas bandas de cá, somente começaram a enxergar sua importância como fonte de renda e expansão do turismo, de poucos anos pra cá. Quando perceberem que cultura é tão importante quanto saneamento básico, então diminuirão as dificuldades e as “doenças culturais” que atingem nosso povo.
Aponte algumas soluções para um maior incentivo à produção de música na Paraíba.
- A Criação de “Embaixadas Culturais” em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, com espaços para exposições permanentes de fotografia, artes plásticas; palco para shows, peças teatrais, cinema, artesanato, feiras, etc;
- Espaços fixos e volantes para apresentações culturais diversas nos bairros de João Pessoa e em todo estado;
- Leis de incentivo que priorizem a produção profissional. Diferindo quem faz arte com profissionalismo e quem tem apenas “vontade” de gravar um Cd para mostrar pros amigos. A democracia, neste caso, não é tratar todos por igual, porém cada um com sua importância e reais condições de projeção e crescimento, diferindo as verbas de acordo com o perfil e o talento do grupo e/ou artista;
- Criar um diálogo com estados, como Pernambuco, para estabelecer um sistema de troca, ou seja, que os artistas daqui, na mesma proporção, toquem no estado vizinho, como os artistas de lá são trazidos pra cá;
- Investir em feiras culturais para nosso estado ou, pelo menos levar nossa cultura para feiras no Brasil e no exterior;
- Criar núcleos dentro da Secretaria de Cultura e Funjope, que possam ajudar os artistas que não dispõe de ferramentas e informações suficientes para desenvolver seus Projetos Culturais para Lei de Incentivo, como a Lei Rouanet, por exemplo;
- Investir em Escolas de Formação Erudita, como a Antenor Navarro, por exemplo;
- Incentivar os Mestres da Cultura Popular e os seus seguidores;
- Criar Festivais com bom suporte técnicos de palco, luz e som, para eventos da cultura primária, como o repente de viola e literatura de cordel.   
4. Conte sobre a sua história com a música paraibana.
Minha música é paraibana! Embora não seja paraibano –sou piauiense- foi aqui onde tive o prazer de conviver com esse gigantesco celeiro cultural  e fazer minhas criações. Desde os coquistas,como Terezinha e Lindalva, Geralldo Mouzinho e Caximbinho à repentistas como Oliveira de Panelas, Ivanildo Vila Nova a estudiosos da cultura popular, feito Bráulio Tavares, Jessier Quirino, Astier Basílio, Altimar Pimentel, passando por artistas contemporâneos, feito Escurinho, Totonho, Cabruêra, artistas plásticos do nível de Clóvis Júnior e Flávio Tavares à escritores como Ariano Suassuna, Astier Basílio  e forrozeiros da estirpe de Marinês, Genival Lacerda, Biliu, Clã Brasil, Flávio José, Sivuca e por aí vai. Minha relação com a cultura da Paraíba é ampla, próxima e definitiva!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Entrevista com Marcus Viana, produtor musical de novelas da Globo e da cantora Paula Fernandes



Quem viu e ouviu a nova musa da música brasileira, Paula Fernandes, cantando ao lado do Rei Roberto Carlos, no show em Copacabana, Rio de Janeiro, em dezembro de 2010, transmitido pela Rede Globo, com certeza se emocionou com a moça, dona de uma voz encantadora!

 A jovem, no auge dos seus 27 anos, é a mais nova estrela do cenário musical brasileiro, apresentando em seus shows um repertório afinado, romântico e pop!  Mas não se tornou conhecida assim da noite para o dia. A cantora nasceu em Sete Lagoas, Minas Gerais e começou a cantar apenas com oito anos de idade. Gravou 2 cd’s demo com o músico e produtor Marcus Viana, que incluiu a cantora na trilha sonora de duas novelas da Globo, “Escrito nas estrelas” com a música “Quando a chuva passar” e em “Araguaia” com “Tocando em frente”, juntamente com o cantor Leonardo, e em outubro de 2010 gravou o seu primeiro DVD da carreira contendo os grandes sucessos e músicas inéditas, inclusive com participação do próprio Marcus Viana.

 Marcus Viana, músico e compositor, autor de grandes sucessos de trilhas sonoras das telenovelas da Rede Globo, trabalhou em “O Clone”, “A casa das sete mulheres”, “Pantanal”, “Que rei sou eu”, “Xica da Silva”, “Terra Nostra”, a minissérie “Chiquinha Gonzaga”, o filme “Olga” e outras produções, obras televisivas que não só marcaram a carreira do compositor mas uma geração inteira que acompanhou e contemplou os grandes sucessos do autor. Na entrevista, Marcus Viana esbanja simpatia e sinceridade onde fala sobre a “Paulinha” (como costuma chamar a cantora), os interesses do mercado fonográfico e os marcos em sua carreira.

1. Como se deu o processo de produzir artistas brasileiros?

Na verdade sou músico e compositor. Ser produtor foi consequência, pois como eu era independente tive que produzir meu próprio trabalho, aprender ao longo do tempo todas as etapas do processo de produção de um cd , mais tarde, de um dvd, produzir arte gráfica... Claro, afinal o gostoso de ser independente é poder fazer as próprias capas e toda a arte né? Comecei na minha carreira de produtor quando produzi meu primeiro LP em 1984.

2. Prefere fazer ou produzir música?

Claro que prefiro compor... Não tem nada mais prazeroso do que o processo criativo... Criar música, as letras para as canções, as artes para as capas... Isso é o melhor! Agora produzir é um saco: tomar conta de tudo , extremamente racional, exaustivo e trabalhoso... Cuidar do trabalho dos outros em todos os setores.... Jogo duro! No meu caso, imagine tomar conta do trabalho musical artístico e burocrático! Aghh...

3. Como foi trabalhar com a cantora Paula Fernandes?

Tive o prazer de trabalhar com a Paula à partir de 2005 quando ela ainda era uma ilustre desconhecida. Pude conviver com ela no dia à dia, desde então trocamos figurinhas: ela tocou na minha banda e eu produzi os trabalhos dela! Me tornei uma espécie de empresário, me dedicando à encontrar um caminho para a música da Paula. Foi a primeira vez em que extrapolei minha função de músico e dei uma de empresário e produtor... Coincidiu que meu trabalho na Globo diminuiu e tive mais tempo para me dedicar à Paulinha. Sorte dela e sorte minha, conseguimos o quase impossível: convencer uma multinacional à investir num novo talento, uma mulher num vasto universo masculino...esse ...esse mundo agro-rural... (risos!)

4. Quais os artistas você já produziu?

Só ajudei alguns na criação de arte gráfica, em pós-produção de áudio (finalização de cds). Produzir mesmo, só a Paulinha.

5. Em toda a sua trajetória como produtor musical quais as maiores dificuldades encontradas?

Acho que é depois de tudo lindo e pronto, mostrar pro mundo... Divulgar, promover, distribuir e vender. Fazer acontecer! Isso é um departamento que só as multinacionais tem. Lançamos 2 cds da dona Paula Fernandes e tudo estava bem pequeno, mesmo eu conseguindo colocar ela na Globo em 2 novelas... foi só a Universal chegar e crau! Emplacou nacional...

6. Pra você quais as maiores exigências atualmente do mercado musical brasileiro?

Exigências? O mercado da música é viciado culturalmente... É chapado, não tem ética, não tem classe, não tem um único objetivo à não ser a grana! Não existe a preocupação quanto à Arte em sua essência maior.

7. Na sua carreira de músico, quais os trabalhos que mais marcaram a sua vida?

Meu início com o grupo Sagrado Coração da Terra. Fazer as trilhas das novelas Pantanal, O Clone, Xica da Silva, A Casa das 7 Mulheres e do filme Olga, e agora produzir os cds da nossa famosa diva sertaneja!